Jornalismo: três espécies

Os tipos, as categorias mutam ao longo da história. Tipos de nomes e tudo o mais nascem e morrem. São criados e deixam de existir. No que tange profissões, dá-se o mesmo. Relativamente ao assunto que vamos abordar nesta pequena exposição, ou seja, a respeito dos tipos esistemológicos de jornalistas, devemos de antemão antecipar que não são categorias fixas. Tenho certeza absoluta de que elas se modificam, assim como, na nossa época, saltam-me três tipos distintos de jornalismo: o modernista, o neoiluminista e o funcionalista.

O jornalista modernista é, para muitos, o radical. Defensor apaixonado de um "lado", crê que jornalismo é defesa forte e engajada de determinadas manifestações sociais e, muitas vezes, culturais. Seu texto prima por um toque pessoal - se não pelo uso de pronomes pessoais, afastando qualquer crença em "objetividade", que para eles é palavrão, então pela abordagem tácita de que tais coisas são verdadeiras e (mais importante, sobretudo) as da necessidade do povo. O jornalista modernista geralmente vive seu auge na adolescência profissional, e mais tarde ou aprofunda seu radicalismo (quase uma característica geral deles), virando porta-voz do grupo, ou recrudesce de emoção, ou entregando-se a um posto burocrático na sociedade da indústria avançada, ou vivendo como um velho isolado (e muito, muito sábio). Mas os poucos que vencem neste estilo de jornalismo (e de vida) costumam ser bem vistos por todos mesmo, por seu grau de devoção à profissão, às causas sociais e pela confecção de (geralmente) uma grande obra.

O jornalista neoiluminista é, para muitos, considerado o melhor de todos - e com razão. Estes são o tipo principal da boa e grande mídia, predominantemente a impressa. Trata-se de uma pessoa com forte dedicação profissional, no que ela se aproxima da genética modernista - mas desta se distingue, basicamente, por acreditar que é possível fazer bom jornalismo dentro de uma grande empresa. Em relação ao estilo da narração, é geralmente econômico, pragmático, racioanlista, isto é: resume as posições centrais dos atores envolvidos num estilo impessoal de texto, preocupado sobretudo em extrair as consequências de uma determinada ação do governo e ou de um acidente ou acontecimento. Este é o jornalista que, em certa medida, mais trabalha - pois geralmente não muito aparece: ele não se considera um elemento central da história.

Por fim, temos o jornalista funcionalista. Este é geralmente identificado com acessores de imprensa, e isto em parte é verdade, uma vez que o funcionalista acredita (ou pelo menos aceita) que o trabalho a ele destinado é o "certo", que ele possui uma "função bem estabelecida". Há muitos, muitos nesta classe genética, sobretudo a partir das últimas décadas do século XX. O modernista e o neoiluminista o criticam, mas sabem (sobretudo o segundo) reconhecer seu papel (afinal, os funcionalistas ajudam os neoiluministas a fazer seu trabalho). Os funcionalistas geralmente são criticados por se contentarem em repassar mensagens, visivelmente atuando menos no que os outros consideram central: criticar sempre e defender o melhor lado (modernista) e trabalhar pelo consenso geral (neoiluminista). No entanto, postos funcionalistas abundam e geralmente fornecem um bom salário, o que faz calar parte do raciocínio de muitos (sobretudo modernistas).

Claro, estas categorias não são absolutas. Há muitos híbdridos, dos quais o mais interessante é sem dúvida o funcionalista diurno/modernista noturno, que nessa vida dupla realiza a síntese que o neoiluminista procura manter ativa na prática. No entanto, um mundo feito só de neoiluministas seria muito tedioso, embora haja momentos históricos em que cada um dos tipos é mais necessário.