O modernismo e os modernismos: sobre o último livro de Peter Gay
Tive a chance de ler há pouco tempo o livro "Modernismo", do historiador alemão-nascido e americano-formado Peter Gay. A obra, devo dizer, me abriu os olhos para o modernismo como um todo. Gay decidiu escrever o texto a partir de uma visita sua ao Guggenheim Museo, em Bilbao, do aqruiteto Frank Gehry, obra a que ele credita uma espécie de "modernismo contemporâneo". Quando comentei isto com um amigo meu (um jovem arquiteto), ele falou: "Hum… vá lá, Ghery não é lá tão modernista assim…"
Tentar qualquer definição de um termo dado a tantas interpretações de um fenômeno como foi (é?) o modernismo é algo com que Gay, notável historiador cultural, nem perde tempo. Mas ousa - e aqui faz abrir nossos olhos - em enxergar o advento deste movimento como uma experiência histórica muito, muito ampla. Assim, analisa, num volume de algumas centenas de páginas que têm um peso de leitura muitíssimo menor, os modernismos do teatro, da poesia, do cinema, da pintura, da arquitetura, do romance e da escultura.
Das análises comparatistas de Gay surge a grande questão, que ele parece misteriosa e provocativamente deixar inconclusa: o modernismo é um fenômeno histórico ou filosófico, existencial? Isto é: o modernismo foi algo que ocorreu lá entre a metade do séc xix e a metade do séc xx? - ou é uma postura permanente (estrutura) do (humhum…) "homem"?
Gay traça algumas características essencias do ser-modernista, como: um movimento voltado para dentro do artista (um "ensimesmamento"), uma revolta contra a tradição ("nada que já foi feito presta!) e o uma consequente grito pelo presente ("vivamos o nosso momento!"). Para Gay, ao fim e ao cabo, o modernismo é a grande manifestação artística da qual temos notícia recentemente - é, portanto, a resposta histórica do nosso tempo a uma questão filosófica permanente (o que é a "arte").
Do estilo de Gay, é louvável seu estilo ensaístico extremamente fluido e limpo, seu toque quase sensual à composição do texto e de sua argumentação; muitos ensaísmos caem em enrolação, mas o dele fecha com o conteúdo sobre o qual quer dissertar: uma história cultural das mais ricas (para nós, seres pensantes e viventes do séc xxi). Entretanto, Gay, como bom admirador da arte, parece a mim por vezes se perder em elogios aos artistas dos quais fala; isso, notemos, é inclusive pertinente a uma postura modernista, a da glória ao artista como um ser quase extra-social (ou melhor: extra-burguês).
A abordagem panorâmica e não por isso não detalhada de Peter Gay faz abrir os olhos também para outras manifestações do mesmo período histórico em jogo (sécs xix-xx). Depois da leitura, fiquei me perguntando:
- o que essa quase "metodologia do modernismo" teria a dizer sobre a filosofia recente? Penso sobretudo em três autores que teriam tudo para serem classificados, de acordo com esse método, como filósofos modernistas: primeiro, Martin Heidegger, com sua fortíssima repulsa bem-orientada de toda a tradição filosófica ocidental e com sua valorização do sentido da existência a partir de uma perspectiva essencialmente individual. Em segundo lugar, Theodor Adorno, com seu marxismo atualizado e voltado para as condições de emancipação da consciência e suas críticas à arte industrializada, massificada e burguesa (como Gay constantemente repete, o modernismo foi muitas coisas, mas nunca democrático). Em terceiro lugar, é claro, estão Ludwig Wittgenstein e seu método radicalmente ousado de análise filosófica, do qual são grandes características uma nova postura linguística (como não pensar na sua argumentação e mesmo disposição do texto, em frases soltas, como um estilo modernista?) e uma rejeição quase adolescente da tradição (algo como "pouco me importa o que foi dito até hoje - o que somente importa é que eu tenho certeza de ter resolvido todos os problemas").
Além de nos perguntarmos sobre um modernismo da filosofia, eu entrevistaria uns físicos, matemáticos e historiadores da ciência para perguntar, afinal se Einstein não foi, afinal de contas, um modernista por excelência: se ele, Heisenberg, Borg, Goedel e outros dos quais não tenho conhecimento não estiveram imbuídos de um espírito modernista por excelência ao balançar as bases da ciência, dando espaço para o boom da mesma nas últimas décadas.
Isso me parece ser realmente algo muito interessante, e é, ao fim e ao cabo, uma das grandes perguntas que os historiadores e críticos culturais do nosso tempo podem se fazer: em que medida a ciência - esse conjunto de perniciosas descobertas comprovadas, seja aqui ou lá, ontem ou amanhã - é também um resultado de um momento histórico rico ao extremo, como foi o início do séx xx.
Estamos hoje na aurora do séx xx, e revoluções na genética, na informática, nas telecomunicações agitam sobremaneira nossas visões sobre o presente e o futuro. Parece ser a hora se vamos, um tanto tarde, aprender se é possível sermos também modernistas no último campo que falta: a política.
