Esclarecimento comunicacional: sobre a “massa”

Por ocasião de formatura e início do mundo profissional, ando naturalmente pensando sobre, afinal, quais são as principais questões que estão em jogo quando se trata da discussão crítica sobre sociedade, comunicação (e jornalismo). Esse post é um de outros que, à medida que tiver paciência (afinal, tudo é uma pergunta de vontade e persistência), irei escrever aqui. Eles têm por objetivo identificar, sem grande rigor formal ou bibliográfico, problemáticas e tentar reduzi-las ao "problema em si". Não há nenhuma pretensão de novidade. Minha motivação é a percepção de que, no mais das vezes, perdemos muito tempo rodeando problemas que poderiam ser resolvidos de modo mais objetivo.

A "massa" é a grande questão da "comunicação de massa". Por mais que possamos ter, conceitualmente, a distinção entre quando a comunicação é massiva (grandes emissores, broadcast) e quando ela não é (interpessoal, blogs, narrowcast), acho que esquecemos que o grande problema da comunicação de massa é a o fenômeno da massa em si. A comunicacãção de massa é a mesma manifestação que, por exemplo, a democracia de massas. Os problemas que os teóricos preocupados com a comunicação (de massa) têm são os mesmos enfrentados pelos ocupados com os problemas das condições republicanas de eleição numa sociedade de massa - os quais não diferem também dos cientistas dedicados a resolver problemas (ou mesmo a estimular!) uma produção de alimentos na indústria da agricultura numa escala massiva. Esses fenômenos devem ser entendidos juntos: eles representam o mesmo problema, o da massificação (de algo).

A massificação, essencialmente: anula diferenças, planifica padrões e exige o alastramento de um determinado "singular eleito". Em teoria, qualquer singular, qualquer algo pode se massificar. Mas um olhar despretencioso na história mostra que os singulares eleitos, ao serem eleitos à massificação, assumem características comuns. Isso desvela a essência da massa. Um produto massivo sempre será plano, simples e passível de repetição, seja ele um tipo de notícia dentro de um jornal massivo, uma forma de captação de votos num processo eleitoral, seja um determinado almoço congelado e distribuído aos milhares ou mesmo milhões.

Àquele envolvido com a reflexão sobre a massa é essencial saber analisar, em termos não somente numéricos, mas principamente estéticos e hermenêuticos, as consequências da massificação de determinado singular.

Àquele envolvido com a produção num ambiente massivo mostra-se o desafio de saber escapar à formula da massa, o que se dá principalmente pelas vias da inteligência, da criatividade e sobretudo da coragem e da vontade.

Por fim, não podemos - acredito - escapar ao juízo (que, via de regra oficial, não pertence ao método) de que a massa é algo ruim, e que temos conseguir evitá-la. Pode-se escapar à massificação quase sempre e a quase todo o momento - e em todas as esferas sociais de produção e vivência. O industrial envolvido numa das inúmeras etapas da produção de algo tem a chance de diversificar seu produto mediante o diálogo sagaz com seus superiores e inferiores (se de fato vai dar certo é incerto). Mas também os consumidores têm, a todo o momento, a chance de não optar por um produto não-massivo, eleger o seu próprio singular. Uma reflexão sagaz sobre a massa deve pressupor a liberdade e, consequentemente, a responsabilidade daquele que irá consumir, mesmo que em doses variáveis.

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