Sobre a falácia do “escolher um lado e exortar uma sua verdade universal”: da agonia reflexiva à ação imperativa

É enganosa a nossa preocupação sobre, num acesso de crença e sentimento sobre determinado evento do mundo, escolher um lado. Isso ocorre geralmente na política. Dado sujeito está a discutir uma medida governamental e, ao longo da discussão, diz, chegando a uma conclusão sobre si: "Eu sou de direita."

Eu sempre fiquei em dúvida sobre alguém ter o direito moral de se dizer ser de algum lado. Isso vale claro para posicionamentos mais amplos, como, por exemplo, escolher ser um analítico ou um hermenêutico. Minha agonia reside no fato: podemos escolher um lado? Escolher um lado não é ignorar todo um arcabouço de opiniões que, em suma, não são descartáveis por via de argumentação pura? (E são poucos os argumentos - se é que há algum - totalmente dedutíveis e avaliáveis por meio de uma lógica pura.)

Em termos de jornalismo, ainda mais, não podemos escolher um lado, pois isso implica em menosprezar formas diferentes de raciocínio. Ou, em uma palavra: decidir sobre um fato do mundo é manifestar uma crença sobre a estrutura do mundo, é exortar-se como um deus.

Duas objeções a essa tese a resolvem, desnudando sua falácia. A primeira é que, tal agonia, pressupõe que, em nossa mente, teríamos a possibilidade de conter todas as possibilidades de avaliação do mundo. Pois a agonia contida em escolher pela direita política ou pela hermenêutica filosófica, temendo menosprezar outras opções, implica que temos à nossa disposição um rol completo e finito de opções, como se a nossa mente fosse um banquete infalível, no qual, num primeiro momento contemplativo, avistaríamos todas as opções, e, num segundo, decisivo, optaríamos por um dos pratos de comida à nossa disposição.

A falácia consiste, pois, no fato de que o nosso banquete, por maior e delicioso que seja, não contém todas as receitas do mundo. Ou seja: o momento prévio à tomada de decisão, feita por alguém ao dizer: "sou de direita", já é um momento de escolha, de menosprezo por tantas outras opiniões das quais nem temos noção, às quais provavelmente jamais teremos acesso.

A segunda objeção é já uma solução. Já que se trata de uma ficção ontológica a idéia de possuir à mão todas as opções de avaliação do mundo, só resta a nós atuar de acordo com as que temos. O desejo de totalidade não se legitima. O mero fato de estar no mundo já condiciona nossa tomada de decisão, antes mesmo que tomemos qualquer decisão!

Estamos constantemente atuando e decidindo, mesmo que queiramos por vezes o contrário. Resta a obrigação, portanto, de tentarmos, do modo que for, decidir no que acreditamos mais. Dizer, pois, "sou de …", torna-se um imperativo, à medida que passa de um dilema ontológico e se torna um dever moral.

4 Comments »

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  1. Poderia me dizer o que tu desejas nos dizer através desse texto? Abraço.

    Comment by Gabriel — April 21, 2009 @ 8:58 pm

  2. nos informar*

    Comment by Gabriel — April 21, 2009 @ 9:00 pm

  3. Impressionante. Nunca tinha pensado nisso com essa profundidade… Vou tentar achar algum “furo” na tua argumentação, embora à princípio não pareça existir nenhum =P

    Comment by Natusch — May 27, 2009 @ 12:44 am

  4. só um comentário, um pedido na verdade.

    volte a escrever!

    =)

    Comment by Camila — May 28, 2009 @ 10:09 pm

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