Sobre O curioso caso de Benjamin Button e a tese latente de Fitzgerald (ou o quanto Heidegger previu este filme em 1927)

Ao passar pela mulher que recolhe o ingresso, ela gritava aos clientes cinematográficos: Austrália para a esquerda, o curioso Benjamin para a direta. Afora a simpatica intimidade que ela supria por estas duas obras, a denominacao carinhosa para a segunda parece correponder a sensacao geral de todos pela filmagem do sonho de Fitzgerald, no qual um homem nasce velho e, com o passar do tempo, rejuvenesce. Mas a curiosidade inicial, fruto da idéia central e do modo escolhido para contá-la, ganha, com o passar da reflexao, ares diferentes, que eu denomino agonia. É nessa carcterística, latente à tese básica do filme, que reside seu grande mérito. Mais: é na manifestacao das limitacoes do programa de Fitzgerald que brota sua beleza trágica.

Confusao e curiosidade: a magia superficial

Antes de assistir a O curioso caso de Benjamin Button, eu já estava preparado para o filme. A campanha publicitária foi impressionante. A mídia repercutiu: aundaram análises e resenhas do filme, preparado que foi para o Oscar – e que deve levar. Em compensacao, a preparacao pública e jornalüistica nao me deixou lucido. Pelo contrário, quanto mais lia, mais ficava confuso, e sentia que os criticos de esmiucavam na tentativa de elaborar textos muitos densos e bonitos sobre uma obra complexa, multifacetada. (Muito disso, claro, está no que irei defender aqui.)

Um aspecto da forma do filme deve ser exaltada que é sua opcao por uma narrativa mágica. Há o protagonismo exótico de Button, o ser torto e posto ao mundo ao avesso, cuja história, sozinha, catalisaria um ambiente muito caótico e depressivo ao filme. No entanto, o diretor opta por intercalar momentos comicos, ludicos, poeticos; os dois melhores exemplos sao a belissima historia inicial do relogio em marcha ré e as narracoes do amigo idoso atingido por raios. No seu conjunto, estes elementos tornam O curioso caso um filme que nao quer nos contar somente a historia de Button pelo viés triste, mas sim emprestar-lhe uma aura mágica e feliz. O efeito é ótimo, de modo que as quase tres horas nao deixam-se sobrecarregar de tristeza.

Sao esses os elementos que, aliados à proposta de uma vida ao contrário, tornam este filme um obra curiosa, propensa a uma reflexao às vezes profunda, mas no mais das vezes, bonita sobre o curso da vida. Esse é, no meu entender, um nível superficial da história, que opera no nível da curiosidade.

Em direcao à agonia: fundamentos

A tese oculta e mais atordoante de Benjamin Button, no entanto, funciona quando entendemos o quando o próprio empreendimento de Fitzgerald é, em si mesmo, insuficiente. Artista, este autor propos-se (dentro dos limites do que podemos considerar intencao de um artista) o sonho mirabolante de uma vida ao contrário. Fisicamente, solucinou a equacao com um homem que nasce com todas as características de um idoso (afora o tamanho) e que, a partir da adolescencia, no auge de sua velhice biologica, passa a rejuvenescer, de modo a morrer, pelos supostos 80 anos, como um bebe.

No entanto, metafisicamente (isto é: espiritualmente, mentalmente) Fitzgerald nao solucionou ou nao quis solucionar o problema. A alma de Button opera no cuso normal da vida. Benjamin Button é somente a história de um homem normal, com uma bizarro doenca, que fazia as pessoas em volta dele tratá-lo como idoso quando era jovem (e vice-versa) e que lhe impunha limitacoes. Neste sentido, olhando de modo muito crítico, trata-se somente de um caso extremo, do qual outras doencas nao diferem em essencia (paraplesia, ezquisofrenia, etc.)

Caminhos do problema: a questao da agonia

A questao que fica, que quer destrinchar o mistério agoniante da coisa e arrancar-lhe toda a curiosidade superficial é a seguinte: como seria a história se Fitzgerld tivesse concebido (ou conseguido conceber) um Button físico e metafísico?

A resposta a esse questao, a bem dizer, nao tem resposta, pelo simples fato („e todos os fatos devem ser simples“) de que nós nao conseguimos imaginar tal ser. Um Button que nascesse metafisicamente idoso implicaria que ele já tivesse a vivencia e a sabedoria de um homem de 80 anos. Isso funciona com a física, mas nao com a metafísica.

A velhice física é determinada em linhas gerais pela nossa condicao biologica: embora os velhos possam diferir biologicamente entre si (nao apenas no sentido de um ser mais saudável que outro por ter feito mais esportes, mas também, suponhamos, que um perdeu uma perna durante a vida e tem, poranto, uma velhice mais debilitada, ou mesmo porque fumou muito mais cigarros e charutos), há um quadro geral que caracteriza a velhice biologica – que, no caso extremo, é a falencia (inevitavel, diga-se de passagem), dos órgaos. A morte do é o nosso destino físico inevitável, ninguém escapa.

A razao da agonia: os limites do projeto

O mesmo exercício nao pode ser realizado com a velhice metafísica. Há como dizer como é mente, a sabedoria, o genio, a carga emocional, o espirito de um velho? Embora certamente consigamos tracar algumas linhas gerais (e elas certamente estarao diretamente ligadas a algumas características físicas), é peremptoriamente mais desafiador e infinito tracar a mente de um velho em termos metafísicos, pelo simples fato de que nao há como determinar (como ocorre com a biologia) o que deve ocorrer com o espírito/mente/alma de uma pessoa ao longo da vida.

Nao podemos dizer o que deve acontecer com uma pessoa. Tentando responder pois a questao acima, o único modo de criar um Button metafísico seria determinando-lhe toda uma carga de experiencias que ela já haveria vivido antes mesmo de viver! E isso deixaria entao essa nossa historia hipotética de um Button 2.0 muito mais afeita a delirioso geneticos de clonagem de gosto duvidoso, coisa que nao estava na mente do insipirado e muito bem intencionado Fitzgerald.

Ao nao querer/nao conseguir (manter esta dualidade é essencial) criar um seu Button, concebendo, enfim, um Button capenga, Fitzgerald deu um golpe de mestre, querendo ou nao. Ao faze-lo, separa duas categorias que, para nós, estao tradicionalmente unidas. Pois associamos natualmente o tempo (entendido como estágio da vida) com a pasagem do tempo (entendido como o transcorrer da nossa existencia). Noutras palavras, Fitzgerald está opondo o tempo (captado na sua acepcao físico-biológica) à existencia (como o processo de somente podemors existir à medida que o tempo passa).

Consequencias e conclusao: em direcao a Heidegger

Há nisso um tanto de crueldade, apontando que, nao importa o que aconteca ou como nascamos, estaremos sempre destinados a existir como seres que sofrem a passagem do tempo e existem nesse enigma (ainda nao resolvido, ainda nao tornado fato simples). Mas há nisso também um tanto de docura, à medida que aproxima todos os seres humanos, sejam eles criancas e idosos, unidos que estao, independentemente de seu estágio (biológico) de evolucao, pela agonia da existencia.

Coisa muito semelhante defendeu Martin Heidegger em 1927, utilizando um pesado jargao para compor Ser e tempo. A existencia no tempo é a nossa característica principal enquanto humanos, da qual nao conseguimos escapar. Ao mesmo tempo, é essa indeterminacao pela passagem do tempo (afinal, futuro é o que ainda nao aconteceu) que empresa agonia à vida, enfim: a agonia está no fato de que estamos sempre vivendo e experienciando, sem parar, até o momento da nossa morte, fato determinante mas ainda indeterminado.

O curioso caso de Benjamin Button seria tranquilizante, tivesse seu protagonista a habilidade de nao agoniar-se a exitencia calcada na passagem do tempo. Mas é nessa impotencia altamente poderosa do experimento de Fitzgerald que reside a forca deste sonho agoniante e inspirador.