O jornalismo, seu diploma e seus dilemas
Participei hoje na minha faculdade do debate em torno da luta obrigatoriedade do diploma de jornalista. Tratava-se de um debate manifestamente a favor da manutenção do valor do diploma. Como estudante politicamente pouco informado e como recém advindo da Alemanha que sou, fui para lá com muito interesse e ralo conhecimento. Esse texto é um pouco grande: trata-se em parte de um relato do que aconteceu na discussão (o que não foi muito, resume-se em poucos pontos) e em parte do que penso sobre a coisa toda.
O que foi a discussão
A obrigatoriedade do diploma de jornalista foi estabelecida no final da década de 60, auge da ditadura. Não tenho grande conhecimento do tema, mas parece claro que foi manobra do governo – com apoio dos então emergentes donos da mídia de massa brasileira –, no intuito de frear um jornalismo que era, então, muito crítico, combativo, ousado, e assim permaneceria por mais alguns anos até entrar no marasmo dos anos 90, que hoje atinge seu cume. Na prática: domestica-se a profissão, o que, no caso de uma como a de jornalista, é matá-la naquilo que lhe é essencial – a crítica e vigília do poder.
Aqui entra a primeira questão – fundamental – que me fazia durante a reunião e que, mesmo perguntada por um estudante aos palestrantes, não veio a ser objetivamente respondida: quem, afinal, quer acabar com a obrigatoriedade do diploma? Ninguém sabe ao certo, ninguém consegue apontar “você, você e você!”, a coisa é escura e obtusa. Mas ao mesmo tempo sabe-se que a “grande mídia” está por trás, que são as grandes corporações do negócio da comunicação que se escondem por trás. Apoio político? Certo que o há. Setores da sociedade? Sim, claro, pois são justamente alguns deles (os empresarias) que, desprovidos de um senso democrático como Habermas exigiria, dominam o poder efetivo da sociedade brasileira.
Aqui entra o segundo ponto. De acordo com seus aguerridos defensores, a perda da obrigatoriedade do diploma daria a esses business men a liberdade de contratar quem quisessem. No lugar de jornalistas, chamam-se economistas, advogados, médicos, enfim, pessoas que sabem, em 95% das vezes, mais sobre economia, direito trabalhista e saúde do que nós, estudantes da arte, da ciência e da técnica da comunicação. Não haveria, pois, mais lugar para nós, comunicadores.
Eis que chegamos ao término do argumento deles, tal como o pude identificar: ao lado dos conhecimentos específicos (economia, direito, medicina), o trabalho nos meios de comunicação requer um conhecimento específico do campo da comunicação. Como defendido por grande parte de seus porta-vozes, este seria em parte técnico (como redigir um texto, como operar uma câmera), e em parte humanístico, dado que somente nas faculdades de jornalismo aprender-se-ia a ética da comunicação, direito público e universal que é. (Os termos em itálico, em especial os dois últimos, foram repetidos à exaustão). Ceder à pressão dos “grandes empresários” (para formar este tipo-ideal imaginário) e não lutar pela obrigatoriedade do diploma significaria o fim deste trabalho técnico-humanístico desempenhado, em teoria, pelos jornalistas (diplomados) e, com este fim, o decaimento total da sociedade.
O que penso sobre isso
Não tenho posição definida quanto à obrigatoriedade do diploma. De uma perspectiva personalista, sou a favor, pois estou acabando a faculdade, cujo ganho oficial é o tal diploma, com o qual terei, teoricamente, maiores chances profissionais. Mas de uma visão geral de como as coisas estão indo, eu realmente não sei. Entendo que defendam o diploma – mas que achem então argumentos melhores, pois defendê-lo alardeando uma suposta ética jornalística é dureza. Vale notar que três estudantes levantaram questões aos debatedores, e todos os três partilham do mesmo entendimento: como usar a ética em nosso nome quando jamais ouvimos falar em ética na faculdade?
Fora esse ponto (que considero crítico, e para o qual eles não apresentaram respostas fora uma circunavegação em torno de uma ética comunicacional), reside uma problemática muito maior, que diz respeito ao próprio estatuto do jornalismo no mundo contemporâneo. Não por acaso mencionei acima “arte, ciência e técnica”: qual delas vem a ser “comunicação”? Que tipo de conhecimento é necessário a um profissional que lida com este assunto? Eu não sei, acho que eles não sabem, e muitos escritores e pesquisadores mesmo apontam para o caráter complexo de se pensar a comunicação no mundo atual. Se nos levamos pelo molde do jornalismo antigo, à lá Balzac e Dostoievski, jornalismo é arte unida à alto grau de intelectualidade. Se olhamos o mundo atual, jornalismo é, em grande parte, uma técnica rala, onde pessoas automatizadas não têm a chance (e muitas vezes nem o ânimo) de pensar e agir sobre aquilo que fazem.
O fato é que “comunicação” e “jornalismo” possui um estatuto em mutação numa sociedade que cada vez mais se modifica por inovações tecnológicas comunicacionais com efeitos sobre todas as áreas da ação humana. Um dos debatedores, por exemplo, falou ser um absurdo um profissional de comunicação ser “multimídia”: como assim, diz ele, que alguém vai trabalhar em rádio, TV e escrever textos na internet? Que ele me perdoe se o entendi mal, mas até onde eu o ouvi senti uma forte anacronia em sua opinião. Comparando o escritório jornalístico do Rio de Janeiro nos anos 50 com o computador do site Terra em 2008 há muitas diferenças, tanto técnicas quando “humanísticas”, como eles tanto disseram. Exigir de um profissional que ele seja, hoje, “multimídia”, não me parece, de modo algum, exploração proletária.
Eu saio desse debate pouco convencido da obrigatoriedade do diploma e, pior, com certa ojeriza dos seus defensores, com a forte impressão de que, além do atraso intelectual, pregam na plenária X, e na sala de aula, Y. Ficaria muito contente se ouvisse aqui opiniões de colegas meus.


