Todas as línguas da terra

 
Certa vez havia um homem, Maaku Vionestai, nascido num país qualquer. Como qualquer outro, morava com sua família, vivia sua cidade, e falava sua língua natal. Como qualquer outra pessoa do mundo, crescia, amadurecia e levava a vivida, num misto comum, tácito, porém muito sadio, entre a felicidade e a tristeza mundandas.
 
Aos poucos, por razão de contatos com alguns estrangeiros, muito comuns em seu país, e, eventualmente, pelo entretenimento com alguns livros e bons professores, Maaku tomou conhecimento das línguas dos seus países vizinhos. Não tardou muito, destacou-se: levava jeito para outras linguagens. Com o tempo – e sobretudo com as viagens –, sucederam-se grandes vivências e extensos aprendizados. Maaku aprendeu, com grande acurácia, os idiomas de povos distantes, do além mar. Língua com as quais nem sonhara – e nem mesmo podia sonhar.
 
No domínio crescente das línguas da terra, Maaku conheceu os povos da terra. Com eles Maaku Vionestai falava as línguas da sua terra, a quem por vezes ensinava, mas sobretudo a língua da terra dos outros. Maaku ganhou o mundo. Ia das línguas silábicas às fonéticas. Passava de alfabetos para símbolos icônicos. Ia da linguagem dos homens e da poesia, para a das máquinas, do universo e dos números. Das línguas das mentiras e dos blefes, para a dos tratados e das fórmulas de resolucão de enigmas. Nao tardou também para que fizesse muito dinheiro. Ganhava ouro com maestria e simplicidade, seja traduzindo documentos, mediando encontros diplomáticos, ou mesmo lecionando. Trabalho não faltaria jamais: quem, afinal, nunca precisa aprender mais sobre o que os outros dizem? Todos querem ser entendidos, e nisso Maaku era infalível.
 
Mais que dinheiro, suas habilidades renderam-lhe também fama. De mero morador da terra do Reino da F…., Maaku conquistou o mundo. Não havia coisa alguma, absolutamente nada, que lhe dissesse um enigma cuja linguagem nao conseguisse decifrar. Todos o queriam por perto: comerciantes, reis, cientistas, religiosos. Era homem feliz, realizado. Em tudo encontrava expressão. E em tudo conseguia se expressar.
 
Até que um dia lhe chamaram para um caso de medicina, caso mui grave. Havia, na vila erma de M…., uma criança, oriunda de população carente. Órfa, sem nenhum vestígio de origem, estava adoecendo. Febril, e ainda machucada, cheia de ferimentos, acharam que estava catatônica – ou, na linguagem dos M…, que seu espírito se lhe havia sido roubado. Que tinha, que lhe passara – para isso chamou-se Maaku: o conhecedor de todas as formas de linguagem haveria de saber traduzir a origem do sofrimento da pequena.
 
Aqui não há registros oficiais desprovidos de sinuosidades. Inclusive, é o momento em que os registros históricos comecam a mais divergir e gerar inconsistencias sobre a vida de Maaku. Alguns apontam que ele se aproximou da jovem e tentou, dias a fio, todas variações possíveis dos estimados 340 idiomas da família linguística de K…, a cuja população a menina se parecia, todavia sem sucesso. Outros dizem que a jovem emitia sons com a boca, como que se tentasse buscar comunicacao com Maaku, sem no entanto que ele pudesse identificar qualquer estrutura semântica. Mas muitos registros apontam que ele quedou-se finalmente atônito ao fato de que a jovem nada respondia, e alternava sorrisos e estranhamentos na face, enquanto olhava atonitamente para Maaku, que se escamoteava em lhe dissecar dialetos, como se todos aqueles sons nada, completamente nada, lhe significassem. A jovem emudeceu-se e nada falou. Fechou os olhos nos dele, e ainda sangrando nas feridas, mas já esquecendo da dor, sorriu para ele, como se quisesse – mas o quê? – lhe dizer algo, e morreu.
 
Falante de todas as línguas, Maaku viu o silêncio, não o entendeu, e se calou.
 
Saiu mudo da vila de M…. Voltou para sua casa, se trancou. Amigos tentaram contato, mas nada. Resolveram entrar: tinha ido embora. Maaku, segundo contam relatos e versões de testemunhas, destuiu seus livros. Suas anotações, queimou. Seus dicionários, rasgou. Seus quadros e equações, estilhaçou. E, em cima da mesa de jantar, pairava um bilhete. Seus amigos se aproximaram,e  abriram: estava em branco.
 
Há poucos relatos sobre o que sucedeu ao desaparecimento de Maaku. Com passaporte em todas as línguas, e como nao há manutenção única de unidade semântica na transcrição entre sistemas lexicais e sintáticos distintos, perdeu-se inclusive seu paradeiro. (Conta-se inclusive que, no seu país, não raro seu nome era escrito em jornais a partir da transcrição advinda do idoma T… e,  reescrito em F…, de modo provocava um nome completamente diferente).
 
Maaku sumiu. O nome Maaku Vionestai também. Os mais caóticos, famintos pela tragédia, apostam moedas de ouro que ele morreu numa geleira ou mesmo devorado por lobos. Já outros apostam que se vendeu como um mercenário, que abandonou supostos ideais que um dia tivera, em troca do dinheiro e da bonança.
 
Mas os mais próximos, aqueles que estiveram por perto quando ele pensava em deixar o mundo das linguagens, apostam que está muito bem posto. Têm como certo que desaprendeu muitas línguas, afinal delas não mais precisava. De diversas outras, talvez mesmo tenha simplesmente se esquecido. Apostam que fala agora a sua própria, seja numa metrópole estrangeira e rica ou mesmo num campo ermo e tranquilo.

Notas sobre a sapiência e o conhecimento de si

1
Isso tá te corroendo. Tu vai morrer de câncer assim. Tu e o M. E o I. Nao deixo.
2
Ela tem algo disso. Da dor das coisas. Temos umas almas perdidas assim pelo mundo. Sem sentido algum. Nunca vivi nada assim, pra dizer se essa beleza é real. Não creio que viverei algo assim
3
Uma vez, um professor meu pediu pra falar comigo depois da aula. Eu estava bem. Nada de errado. As crianças tem uma espiritualidade maior. Não foram esvaziadas com a razão. Ele perguntou. "Está tudo bem contigo, Felipe?". E comecei a chorar. Até hoje não sei exatamente o que era.
4
Provável, né, F. creio que tu é a última pessoa a saber dos próprios sentimentos. Sinto que tu questiona tudo e todos exceto tu mesmo, porque as perguntas que tu precisaria fazer pra ti são as que não existem em palavras então não podem existir.
5
O que seria bem de vida? $…? Qual é o teu bem maior: dinheiro, curriculo, ou felicidade? Putz.
6
Que raiva do teu desprezo pelo tempo. Tu e as pessoas eternas. Tu pode morrer mês que vem. Não tem nada que te segure aí. Nada vai mudar se tu não estiver aí e nada de ruim acontecerá. E mesmo que acontecesse.
7
Chorei tanto pensando em ti ontem. Existem motivos, mas que normalmente não me abalariam tanto. Chorar, a princípio, não é bom. Bom, eu discordo. Acordei em paz: não é dizível. Foi uma dor humana mesmo.

Inconteste

Escrevo esse título como adjetivo, mas também o penso como um "imperativo negativo": nao conteste, afinal contestar nao é possível. É só isso que eu, um anti-fa de Nadal, posso dizer ao final da jornada preparatória de Roland Garros de 2010. Nao bastasse se tornar o primeiro tenista a vencer a trinca de saibro (Montecarlo, Roma, Madrid - antigamente Hamburgo) na mesma temporada, Nadal o faz perdendo, ao longo destes tres torneios e de suas quinze partidas, meros 2 sets (um contra Gulbis, em Roma, e um contra Almagro, em Madrid). Supremacia absoluta. Inconteste.

Na final deste domingo, venceu Federer do modo ao qual Nadal está acostumado. Foi uma partida muito equilibrada em games (6/4 7/6) e muito equilibrada em pontos (85 a 84). Mas no tênis, esse esporte incrível que impõe o desafio de auxiliar constância e frieza a grandes impulsos e sangue quente, o que conta, sobretudo, é ganhar os pontos importantes. E Nadal que, é dono se um equilíbrio mosntruoso ao longo de todas as partidas (ele odeia e faz cara feia mesmo quando erra uma mísera bola perdendo de 0 no servico do oponente quando o jogo está 5 a 1 a seu favor), consegue, justamente contra Federer, ser mais pulsante nas horas decisivas.

O que nao gosto muito de Nadal é sua tática excessiva. O espanhol possui um jogo extremamente metódico, joga no erro mínimo e forcando constantemente o oponente ao erro ou à desistencia do ponto. Essa tática nao é nova. Hewitt adotou-a e isso o levou a ser campeao em Wimbledon, no US Open e a terminar como número 1 em duas ocasioes. Hoje, outro adepto que vem colhendo grandes frutos é Murray.

Agora, o que diferencia Nadal destes dois ícones da resistencia sao tres itens. Primeiro, Nadal possui uma estatura mediana, que o permite cobrir bem a quadra, em altura, e ainda lhe concede enorme habilidade, para correr e se movimentar com maestria. Segundo, Nadal tem uma forca mental colossal, que o coloca, nesse quesito, entre os maiores dos maiores: nao desiste nunca e, ao mesmo tempo, se entrega ao plano tático como servo se dedica ao mestre. E terceiro, o que nao poderia faltar, Nadal é muito talentoso. Varia forca a toques sutis, ataques poderesos a contra-ataques milimétricos.

Nao sei como Federer chega a Roland Garros. Ele já conquistou lá seu título no ano passado, completando o Grand Slam. Todos sabem que ele ama Wimbledon e deve, até o fim da carreira, que ainda tem uns cinco anos, querer se tornar o maior vencedor em Londres (tem seis títulos, um a menos que Sampras). Ele tem tudo para, em poucas semanas, ultrapassar o americano no número de semanas como númeo um do mundo, e neste ano irá ultrapssar a barreira de 700 vitórias pelo circuito profissional. Neste ano, aumentou seu recorde pessoal de 16 Grand Slams, o que dificilmente será batido em curto prazo, mesmo por Nadal, que tem 6 títulos. Mas depois destes recordes e destas motivacoes que lhe restam, será que o maior triunfo que Federer ainda possa obter nao é justamente derrotar Nadal em Roland Garros?

Tudo aponta para grandes jogos e resultados nas próximas no mundo do tenis.

Prévias de um grande momento no mundo do tenis?

O mundo do tenis se aproxima de um de seus ápices anuais, que pode, neste ano, ser ainda mais importante.

Nas próximas duas semanas, serao jogados os últimos torneios preparatórios para o saibro de Roland Garros, marcado para junho. Depois disso, em questao de um mes, sao jogados os únicos torneios 250 de grama e a temporada de verao europeia acaba com Wimbledon. Assim, em dois meses (o "ano tenístico" abarca dez), temos a disputa dos dois maiores torneios da história. Além de muita tradicao, há também muito potencial para pontuacao: o audacioso campeao dos dois Grand Slams em terra e grama agrega 4.000 mil pontos no ranking.

Pois, em 2009, a audácia coube a Federer. Junto a esses 4 mil pontos, somem-se mais mil que ele defenderá na semana que vem no Masters 1000 de Madrid, e temos quase metade dos pouco mais de 10 mil pontos que o suico ostenta como número 1 do mundo. Ou seja: metade da lideranca de Federer será posta a prova.

Federer, no entanto, vem em péssimo momento. Após um início de ano fulminante com a conquista da Austrália, Federer acumulou derrotas nas rodadas iniciais de todos os outros (meros) tres torneios que jogou. Conseguiará ele, novamente, superar suas atuacoes apáticas e imprimir o ritmo e o estilo em Paris e Londres? Ao longo dos anos, vale recordar, a atuacao de Federer em torneios nao-Grand Slam vem decaindo bastante, enquanto que sua performance nos majors seguem inabalável. (De seus quase 10,5 mil pontos, 8,2 mil foram conquistados em Grand Slams).

Em 2008, o audacioso que havia sido Nadal, que perdeu quase todos seus 4 mil pontos ao cair nas oitavas de Roland Garros e nao jogar Wimbledon por problemas no joelho. Isso lhe rendou uma queda brusca no Ranking (chegou a ocupar a quarta posicao). No entanto, seu grande tenis apresentado (e recuperado) no saibro, neste ano, é promessa de que ele vá com tudo para recuperar seus títulos principais.

Os dois poderosos meses de saibro e grama podem, assim, indicar uma reviravolta no ranking, sobretudo de Djokovic e Murray nao recuperarem a forma forte, consistente e decisiva que lhes rendeu sólidas posicoes entre o 2 e 5 do mundo já há mais de dois anos. Ao mesmo tempo, Federer tem bons atrativos além dos Grand Slams para finalmente voltar a jogar bem. Sao tres marcas em vista:

1) se ele conseguir defender pelo menos metade dos seus 4 mil pontos, ele irá superar Sampras como o tenista que mais semanas liderou o ranking;

2) se ele vencer mais tres torneios, ele também supera o grande americana em total de torneios ganhos;

3) vencendo os torneios, Federer acumularia cerca de 20 vitórias, o que lhe romperia a barreira das impressionantes 700 vitórias na carreira.

Abaixo de Federer, Nadal, Djokovic e Murray, que compuseram até agora um grupo à parte, há boas expectativas em vista. Verdasco vem apresentando um tenis bem sólido e competitivo. Roddick teve um início de ano excelente e tem boas chances para emplacar uma nova boa campanha em Wimbledon. Gulbis, o letao lunático, pode ter aprendido com sua boa corrida em Roma, quando venceu Federer e foi o único a vencer um set contra Nadal. E Soderling, el matador de Nadal, também vem correndo bem na terra batida, granhando confianca um pouco da necessária para defender sua final de Roland Garros no ano passado.

Conae: desafios, limites e limitacoes

Na abertura da Conae, Fernando Haddad apontou que o principal desafio da educacao para os próximos dez anos na educacao brasileira é a busca nao pela quantidade - que em grande parte já foi atingida - mas pela qualidade do ensino. Levando-o a sério, encaminhei-me hoje para o colóquio sobre Formacao de Professores.
A conversa pareceu-me um bom exemplo de o que é e como funciona uma Conae. Na mesa, havia quatro palestrantes. Os dois primeiros deliberaram discursos isentos de qualquer conteúdo, repletos de lugares comuns e sem nenhum sentido progressivo. O primeiro a falar foi Marcelo Soares, do MEC, que tentou aprofundar sua tese da "fundamental importancia" de uma "sólida formacao teórica que articule teoria e prática". Gilmar Soares, da Confederacao Nacional dos Trabalhadores em Educacao (CNTE), enfatizou a necessidade de "se buscar novas medidas para a formacao de professores".
Já Antonio Carlos Ronca, doutor em educacao, pareceu me mostrar o que de melhor se pode discutir num evento como esse. Ronca sustentou seu texto na tese de que o momento é histórico para a educacao brasileira. Ao contrário de quase todos os outros, disse por que: segundo dados estatísticos, a populacao brasileira está envelhecendo, de modo que, em 2050, presenciaremos uma inversao radical da estrutura da nossa sociedade. Em dados: a populacao potencialmente ativa, que hoje bate nos 35 milhoes (quero conferir esse número) e é maioria sobre as inativas, perdrá muito espaco para a de idosos, que crescerá enormemente em relacao à ativa e à infantil. Ou seja: se as geracoes dos próximos 40 anos nao tiverem chance de crescimento, o Brasil tornar-se-á velho e nao-qualificado.
Ronca apontou serem quase incalculáveis os avancos obtidos na educacao nestes últimos anos, sobretudo no que tange o (embora ainda insatisfatóri) piso salarial e o avanco na obrigatoriedade do ensino básico (partindo agora dos 6 aos 17 anos). "Fizemos muito, mas temos muito pela frente". Esse segundo "muito" se refere, sobretudo, à qualidade do ensino. Exemplos:
- a taxa líquida (isto é, de alunos, pela faixa etária, corretamente situados) no ensino médio é de 50% (enquanto que, em 1998, era de 30%);
- 600 mil (ou cerca de um terco) dos professores do ensino básico nao possuem a formacao básica exigidas pela lei de diretrizes e bases da educacao. Destes, 120 mil sao leigos, isto é, nao tem formacao do ensino médio exigida para o magistério básico;
- somente 73% dos professores de 6a a 9a série cumprem esses requisitos legais. No ensino médio, a taxa é de 83%. Exemplos piores: nestas séries, apenas 53% professores de História sao formados em História. Em Matemática, a taxa cai para 49%.
Ronca concluiu sua apresentacao defendendo a continuidade das medidas de Haddad e a continuacao da política de aumento dos salários dos professores, sem o qual o aumento da qualidade nao é possível.
O último palestrante, Rodolfo Joaquim da Luz, secretário municipal de educacao de Florianópolis, enfatizou que os níveis de atendidmento de creches e de pré-escola (entre 0 e 3 e entre 4 e 6 anos) é ainda muito baixo. Adiantou que, levando em conta a ambicao de universalizar o atendimento a estes níveis e melhorar a formacao de professores dos demais níveis, os atuais orcamentos do MEC (que cresceram assustadoramente com o Fundeb e o fim da DRU) serao pouco. Ele sugeriu que nao 50% (como indicam alguns cartazes aqui), mas 100% do Fundo Social do Pré-Sal sejam destinados à educacao.
Este percurso, entre altíssima e cansativa abstracao dos primeiros, entre dados desafiadores do terceiro, e sonho longinquo do quarto, ilustram, ao meu ver, as benesses e os limites de uma Conae.