Na faculdade de jornalismo, entramos em contato com uma série de idéias teóricas acerca da comunicação humana. Para mim, uma das mais impactantes e, por isso, marcantes, é da incomunicabilidade, ou a dita impossibilidade da comunicação.
Ela, como todo dito filosófico, é simples: a troca, entre duas pessoas, de dados, informações, idéias, opiniões e etc. é um mito. Isso significa que, por mais que falemos, perguntemos e ouçamos respostas, que, enfim, dialoguemos e nos comuniquemos, jamais conseguiremos de fato entender o que o outro está dizendo. Isso implica dizer, portanto, que sempre teremos a nossa própria opinião, o nosso mundo particular, do qual não temos a capacidade de sair.
Dois exemplos dessa teoria. O primeiro se reduz naquela conversa paradoxal travada entre dois filósofos; um diz: "A comunicação é impossível", ao que o outro responde: "Eu concordo". Outro são alguns dos filmes de Antonioni, diretor italiano, conhecidos como a "Trilogia da Incomunicabilidade", na qual pessoas desfilam numa tentativa de serem entendidas e compartilhar sentimentos, sem o conseguir.
A idéia de que sempre vivemos aprisionados ao nosso próprio mundo é tentadora, e num mundo cada vez mais informacional e cibernético, onde muito gira em torno das utopias comunicacionais, a teoria da incomunicabilidade parece uma das armas do pensamento crítico. Mas, ao mesmo tempo, ela nada mais é, ao meu ver, do que a reedição de outros conflitos filosóficos já antes travados na história do pensamento.
Sei alguns poucos exemplos, mas que já são interessantes, pelo menos para um esboço de uma arqueologia do pensamento da incomunicabilidade.
A questão da mudança
Na sua Metafísica, Aristóteles propôs uma solução para o "enigma da mudança", que ocupava muitos os pensadores helênicos. A questão reduzia-se a provar se as coisas mudavam ou não: de temperatura, de espaço, de idade, etc. Alguns argumentos (como o da tartaruga e Aquiles) provavam, segundo alguns princípios matemáticos puros, que a mudança era impossível. Outros colocavam a questão nos seguintes moldes: "Se uma coisa muda, ela precisa deixar de ser o que era, mas ao mesmo tempo continuar sendo o que já era antes da mudança".
Aristóteles, mais físico que metafísico, queria provar que as coisas mudavam: designou para isso uma teoria segundo a qual os seres terrenos são compostos por uma "essência" (que diz o que a coisa é) e "por acidentes" (que determinam algumas condições segundo as quais essa essência se manifesta).
Está já aí o germe do pensamento acerca da impossibilidade da comunicação, camuflado de impossibilidade de mudança. Pois o pressuposto do comunicar (efetivo) é receber uma informação e, com ele, moldar nosso racioncínio, adaptá-lo, e avançar. Nesse sentido, comunicar é mudar. Os gregos pessimistas, descrentes na possibilidade da mudança, céticos acerca da facticidade da mutabilidade, atestam o pensamento da incomunicabilidade.
Ao contrário de Aristóteles, físico por excelência, convicto na concretude de que, sim, as coisas mudam, embora nosso pensamento possa se enganar. Aristóteles é um crítico da metafísica.
A questão da apreensão da realidade
A filosofia aristotélica passou muitos e muitos séculos dominante, predominando numa leitura distorcida de seus principais postulados. Um dos primeiros pensadores a de fato revolucionar o pensamento foi Kant. Inaugurou-se um novo tipo de pensamento, debitário de seus próprios avanços e problemas, que de certo modo dão o chão para a chamada teoria crítica contemporânea.
Esta filosofia centrava-se no sujeito e na nossa capacidade extrema de decisão e responsabilidade. No que toca o nosso assunto, é importante, pelo menos por ora, a introjeção de dois termos, que depois voltam com vários pensadores. Na discussão da nossa apreensão e do nosso acesso ao mundo real, usou-se o termo númeno para designar as coisas em si mesmas, e o fenômeno para as coisas, tal como as apreendemos na nossa mente.
Quando pensamos na estrutura do mundo, devemos, segundo essa teoria, pressupor os númemenos, ou o mundo numênico, isto é, as coisas como elas são aí fora. Mas, como sujeitos, como seres no mundo, presssupõe-se uma falta de acesso às coisas em si mesmas. Nosso pensamento, portanto, é formado a partir da apreensão fenomênica, e não do contato numênico. A questão é que cada um tem sua própria vivência fenomênica, de modo que cada um tem sua própria vivência, sem que ninguém tenha acesso a uma mesma coisa comum, isto é, aos númenos.
É aí que entra outro capítulo arqueológico da incomunicabilidade. Se todos só temos acesso a fenômenos, podemos conversar sobre um mesmo tema (ou mesmo sobre um mesmo objeto), podemos concordar ou discordar dele, mas estaremos, no fundo, sempre falando daquilo que temos em (nossa)mente sobre ele, e não sobre um objeto comum. Assim, a comunicação (tal como a mudança para os pessimistas gregos) é uma ilusão.
Em busca da atualidade da incomunicabilidade
Uma das grandes missões da história é mostrar que aquilo que vivemos hoje como algo novo pode não ser tão novo assim. Acho que é nesse sentido, numa perspectiva historial do pensamento contemporâneo, que devemos contemplar as teorias da incomunicabilidade. O fato de um tipo de pensamento, como esse, se repetir não é, por si só, coisa má ou bela. A questão é saber por que ela retorna e, mais que tudo, entender as formas em que ela retorna.
Este talvez seja o sentido de um pensamento crítico sobre a incomunicabilidade. Ela é, ao meu ver, um componente fundamental das ciências humanas, e sempre será. Ao mesmo tempo, o seu tom excessivamente metafísico e negativista é sinal de que ela deve ser muito mais tomada como um dilema instigador que como um problema de pesquisa em si mesmo.
Acredito que, óbvio, as coisas mudam, que temos acesso ao mundo e que, portanto e nesse sentido, podemos nos comunicar. O sentimento da impossibilidade da comunicação é, ao meu ver, muito mais um novo mal de século, compreensível que é, por certo, mas relativizado que deve ser, pelo bem da nossa relação com a realidade e com o nosso compromisso com a mesma.